| Primeiro-Ministro Rui Duarte de Barros entrevistado por RFI |
Primeiro-Ministro Rui Duarte de Barros concedeu recentemente uma
entrevista à RFI, em que faz um pequeno balanço não só da
situação herdada, desde Maio passado, em termos de gestão da coisa
pública, mas também dos diferentes sectores, nomeadamente,
finanças, justiça e narcotráfico, reforma no sector da defesa e
segurança e dos preparativos em curso para a realização das
eleições em Abril de 2013.
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| Rui de Barros PM do Governo da Transição |
Eis o conteúdo na integra:
RFI -
Segundo a ONU, o tráfico de drogas tem aumentado desde o golpe de
estado de 12 de Abril, no seu país. O que diz a este respeito?
Rui
Duarte de Barros (RDB) - Digo-lhe,
francamente, que é uma má informação porque já tomamos medidas
drásticas contra este fenómeno. Com meios próprios criamos
mecanismos a nível da Polícia Judiciária, instalados em todo o
território nacional, garanto que desde o inicio das nossas funções
não demos espaço aos traficantes da droga na Guiné-Bissau. As
estatísticas mostram-no claramente, não estou em condições de vos
apresentar os dados mas confirmo que há uma baixa enorme em relação
ao passado.
É um fenómeno
que não afecta só a Guiné-Bissau, toca toda a sub-região,
portanto, é necessária uma coordenação das informações na
sub-região. Como o tráfico da droga tornou-se muito complexo
solicitamos aos nossos parceiros (França, EUA e Espanha) que nos
ajudem, em termos técnicos e de pessoal especializado, a termos os
novos mecanismos que se usam no combate ao tráfico da droga.
RFI –
Segundo fontes europeias de serviço anti-droga, a alta hierarquia
militar estará ainda fortemente implicada no tráfico da droga. Como
fazer face a esta situação?
RDB
– Isso
pertence ao passado. Desde que tomei posse não apreendemos um quilo
ou um grama no seio dos militares.
RFI – Mas
em todo o caso é preciso fazer mudanças no seio das forças
armadas. É preciso reformas no seio das forças armadas?
RDB
– A
reforma no seio das Forças Armadas é muito importante para a
Guiné-Bissau porque, como sabe, o país conquistou a sua
independência em 1974, portanto, temos nas forças armadas pessoas
que fizeram a luta da libertação do país e é preciso orientá-los
sobre as novas acções que o governo quer tomar para servir o
Estado. Mas para isso é preciso meios, a Comunidade deve apoiar a
Guiné-Bissau para realizar essa reforma.
RFI – Um
outro sujeito de preocupação sobre a Guiné-Bissau são as
finanças. Alguns parceiros importantes do seu país suspenderam a
ajuda, refiro-me nomeadamente à União Europeia. Como é que faz
para gerir o país sem essas ajudas?
RDB
– Estamos
conscientes de que há um bloqueio da Comunidade Internacional mas
isso não nos impede de assumir as nossas responsabilidades e aplicar
as poucas receitas que o governo tem arrecadado, de forma
transparente ao serviço do povo.
RFI – Mas
quais são as consequências diretas da suspensão?
RDB
– Há
muitas consequências porque há vários sectores sociais que estão
paralisados. Quando assumimos as funções as escolas estavam
fechadas, fizemos esforços com os nossos próprios meios com
receitas internas salvamos o ano escolar.
RFI – E
chegam? Essas magras receitas internas para pagar, nomeadamente, os
salários dos funcionários e o soldo dos militares?
RDB – Não
bastam mas deve-se viver com o que se tem. Estamos a trabalhar no
sentido de convencer os nossos parceiros. Mas também, há muitos
investidores dispostos a vir investir no país, que antes foram
impedidos pela corrupção e diferentes problemas de bloqueio a nível
do país.
RFI – O
Banco Oeste Africano do Desenvolvimento (BOAD) e a Uniao Económica
Monetária Oeste Africano (UEMOA) acordaram uma ajuda de 25 milhões
de dólares à Guiné-Bissau sob forma de empréstimo e doação.
Esse dinheiro vai servir para quê?
RDB
– Estamos
orgulhos de fazer parte da UEMOA e da CEDEAO porque, em momentos
difíceis, estão ao nosso lado. O apoio que recebemos da UEMOA é
muito importante e o apoio da BOAD não é para o financiamento do
funcionamento do estado. Não. São destinados a projetos concretos
que foram definidos, projetos sociais e de infra-estrutura, e,
também, para a reforma das telecomunicações, porque está prevista
a privatização da companhia de telecomunicações do Estado antes
do mês de Janeiro de 2013.
RFI – Em
relação à transição política, que balanços faz das acções do
governo, desde a sua tomada de posse, em meados de Maio, há já
quase três meses?
RDB
– Estamos
concentrados em quatro prioridades: luta contra a corrupção e o
narcotráfico, a justiça, a realização das eleições e realização
da reforma no sector da defesa e segurança. Portanto, neste momento
estamos empenhados na preparação das eleições, de acordo com o
nosso mandato.
RFI – As
eleições deverão ter lugar em Abril próximo, foi o que anunciou o
presidente de transição. Está em preparação um calendário
preciso?
RDB
– É
essa a previsão. Mas, como sabe, há condições… porque é
preciso financiar as eleições, é necessário fazer o recenseamento
biométrico exigido pelos diferentes partidos políticos. É preciso
fazer eleições mas é preciso que não sejam complicadas. Mas para
isso é claro que necessitamos de financiamentos, estamos a trabalhar
com diferentes parceiros para ver como concretizar essa data.
RFI – Um
dos grandes dossiers que gere é a justiça, quais são as vossas
omissões neste domínio?
RDB
- A
justiça sempre foi um problema na Guiné-Bissau. Houve muitos casos
e nenhum com resultados concretos em termos da justiça. O
assassinato do presidente da república, o assassinato do Chefe do
Estado-Maior General das Forças Armadas, o assassinato do candidato
às eleições e o assassinato do deputado, mas nada foi feito a
nível da justiça. Não quiseram dar meios à justiça para que
funcionasse. Por isso o meu governo se empenhou em criar mecanismos
para facilitar o funcionamento da justiça porque sem ela nada se
poderá fazer neste país. Na Guiné-Bissau assassina-se um chefe de
Estado nada acontece e a Comunidade Internacional mantém-se
tranquila. Penso que é preciso rever isso. É preciso uma mudança
de atitude.
RFI - O que
pensa da proposta do ex-primeiro ministro, Carlos Gomes Júnior, de
instalar no país um tribunal internacional ad hoc para o julgamento
dos casos de crime de sangue cometidos na Guiné-Bissau?
RDB
- Em
primeiro lugar, é preciso que a justiça do meu país funcione.
Primeiramente as pessoas que cometeram crimes no nosso país devem
ser julgadas pelos nossos tribunais e se os nossos tribunais não
conseguirem resolver os casos aí passamos para outra etapa.
RFI - Tem a
impressão de ter as mãos livres, e a margem de manobra necessária?
RDB
- Temos
apoios dos partidos aqui na Guiné-Bissau, o que nos faltam são
meios, mas faremos o que pudermos com os escassos meios que
possuímos.
RFI
– Senhor
primeiro-ministro, obrigado.