terça-feira, 2 de junho de 2020

"A pandemia é como um fantasma" Guineenses mais preocupados com caos pós-eleições que com a covid-19

Mergulhados na crise política que chegou a deixar o país com dois governos e dois presidentes da República, muitos guineenses não acreditavam que a covid-19 era real. Com estruturas sanitárias frágeis e com grande parte da população a viver da economia informal, o país já pediu apoio internacional para mitigar os efeitos da pandemia.

Em 2019, a população da Guiné-Bissau mergulhou em dois processos eleitorais que desviou toda a sua atenção do que estava q acontecer no resto do mundo. A classe política guineense aproveitou as legislativas de 10 de março e a segunda volta das presidências de 29 dezembro para espalhar rumores, desinformações e pânico. Toda essa manipulação psicológica na população durante os dois processos eleitorais mergulhou os guineenses num abismo de penúria de ideias. O que levou os guineenses a não se preocuparem com as notícias que chegavam nos media internacionais sobre uma pneumonia desconhecida que em dezembro de 2019 atingiu um mercado na cidade chinesa de Wuhan na província chinesa de Hubei.

Os guineenses estavam mais preocupados com os resultados da segunda volta das presidenciais cujo contencioso eleitoral ainda hoje está no Supremo Tribunal da Justiça (STJ). Ainda à espera de saberem quem, de entre os dois candidatos, Domingos Simões Pereira, do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), e Umaro Sissoco Embalo, do Movimento de Alternância Democrática - Grupo dos 15 (MADEM-G15), ganhou as presidências, chegava a Bissau o novo coronavírus - uma doença invisível e sem cura.

Ao início, a maioria dos guineenses não acreditava que existia uma doença denominada coronavírus. Mesmo com as primeiras pessoas infetadas, os guineenses olhavam para a covid-19 com certa desconfiança popular. Continuaram a aglomerar-se nos grandes mercados de Bissau e nos portos de pescas de Alto Bandim e de Cacheu. Também se aglomeravam nos bares e nos cafés, sobretudo à noite, para discutirem as sucessivas decisões do Supremo Tribunal da Justiça, sobre o contencioso eleitoral e a reafirmação inequívoca e permanente da Comissão Nacional das Eleições (CNE) da vitória do candidato do MADEM-G15.

Combater o coronavírus com dois governos e dois presidentes da República
Na fase inicial não havia informação suficiente e credível sobre a forma exata de transmissão do novo coronavirus na Guiné-Bissau. O contencioso eleitoral que reinava no país criou um cenário complexo e contraditório que desviava a atenção dos guineenses do combate real à covid-19. Em declarações ao DN, o diretor-geral do Centro Operacional de Emergência em Saúde (COES), Dionisio Cumba, sublinhou que "a população não estava consciente sobre a real situação de circulação do vírus no país. Muitos não acreditavam que existe o vírus a circular. Consideravam a situação da pandemia como um fantasma".

O contencioso eleitoral levou o país a ter dois governos e até houve uns dias em que tinha dois governos e dois presidentes da República. Assim sendo, houve mais uma espécie da campanha política eleitoral sobre o tema do coronavírus que não teve nenhum efeito positivo no país. Enquanto nos outros países africanos da sub-região se combatia a sério o problema da pamdemia de covid 19, na Guiné-Bissau ainda se discutia se o governo é ou não legal ou se o presidente da República é ou não legal.

O atual governo de Nuno Gomes Nabiam que, na altura, iniciou as funções encontrou, assim, no coronavírus um tema para mostrar aos guineenses que está a prestar um bom serviço ao país. Ou seja transformou a covid-19 num novo tema de campanha dentro do contencioso eleitoral. Assim sendo, o seu ministro do Interior, Botche Candé, percorreu todo o país sem respeitar as regras de não agrupamento das pessoas para distribuir bens aos militares da Guarda Nacional Motorizadas.

Em Bissau, a opinião dos analistas em Saúde Pública é unânime que o facto de o primeiro óbito de coronavírus no país ser um alto oficial do Ministério do Interior e o próprio secretário de Estado da Ordem Público ter sido infetado prova que, no inicio, nem os membros do governo tiveram cuidado em cumprir a sério as regras de luta contra a covid-19. Os membros dos dois governos que existiam no país estavam mais preocupados em trabalhar para conquistar a sua legitimidade na comunidade internacional. Não estavam interessados em cumprir as regras de combater à pandemia.

Por exemplo, o governo de Aristides Gomes, agora no exílio, usava também os temas da pandemia nas redes sociais para tirar dividendos no contencioso eleitoral que ainda se encontra no STJ. Todos os analistas dos assuntos de Saúde Publica na Guiné-Bissau concordam que o país tem naquela sub-região africana uma das mais fracas infraestruturas sanitárias, fracos meios técnicos e humanos para poder enfrentar com eficácia a situação de profundo agravamento das infeções.

"A violência com que o vírus age no organismo humano e o número das vitimas mortais que causou nos países muito bem preparados, mostram claramente que um país como o nosso não tem capacidade de enfrentar o coronavírus", explicou ao DN Dionisio Cumba, sublinhando que " temos, a nível nacional, todas as estruturas sanitárias obsoletas e sem os equipamentos necessários". Cumba que é também diretor-geral do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSA) assegurou ainda que "mesmo o Hospital Nacional Simão Mendes, considerado como um hospital de referência nacional", não tem meios de diagnóstico. Quanto às restantes estruturas sanitárias do país, não estão equipadas com ventiladores, nem com unidade de cuidados intensivos. Apenas o Hospital Nacional Simão Mendes tem na sua orgânica um serviço de cuidados intensivos, mesmo assim sem o equipamento adequado. Quanto à central de produção do oxigénio está, neste momento de pandemia, avariada.

O diretor-geral do COES, que preside aos trabalhos dos testes do coronavírus no Laboratório Nacional de Saúde Pública, reconhece que a Guiné-Bissau "tem muitos médicos de clínica geral, mas poucos médicos especializados e nenhum em cuidados intensivos". Por outro lado, reconheceu que "de certeza que se a situação continuar a piorar, os técnicos que o país tem não vão poder fazer face à propagação da contaminação comunitária". E foi nesta ótica que o "COES orientou o governo de Nuno Gomes Nabiam para solicitar o apoio a nível internacional dos profissionais de Saúde especializados" para reforçar os nacionais no combate à covid 19.

O diretor-geral do COES lamenta que "o país esteja a enfrentar enormes dificuldades porque a covid 19 é uma nova patologia em que estamos todos a aprender e a experimentar". Mas Cumba disse acreditar que a única arma da Guiné-Bissau para fazer face à pandemia de covid 19 "é o facto da maioria da sua população ser jovem, uma camada considerada como tendo uma certa resistência ao vírus". Todavia, reconhece que "as fragilidades do sistema de Saúde do país", justificam a contaminação exponencial que está hoje a verificar-se na Guiné-Bissau.

Necessidades económicas e sanitárias da Guiné-Bissau
Umaro Sissoco Embaló

Neste contexto de pandemia, para poder implementar uma estratégia de resposta sanitária eficiente, a Guiné-Bissau precisa de 18,8 mil milhões de Francos CFA (2,8 milhões de Euros). É com este valor que o país poderá dar uma resposta eficaz aos desafios que são necessários para erradicar a doença. O atual presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, já reconheceu que só para intervenção social o país necessita de 16,3 mil milhões de Francos CFA (2,4 milhões de Euros), e para os custos de financiamento da recuperação económica a Guiné-Bissau precisa de 102,5 mil milhões de Francos CFA (15,5 milhões de Euros).

Foi perante este cenário económico difícil criado pela pandemia que o atual ministro guineense das Finanças, João Aladje Fadia, já enviou uma carta ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a pedir um financiamento de crédito rápido. João Fadia acredita que o FMI irá conceder à Guiné-Bissau um empréstimo que pode atingir os 50% da sua quota naquela instituição financeira internacional. "Vamos ter a possibilidade de conseguir um empréstimo que pode ir até 50% da quota da Guiné-Bissau no FMI", explicou João Fadia que está esperançado em obter resposta positiva do FMI rapidamente para que o seu governo possa fazer face aos custos de financiamento da recuperação económica da pandemia.

O ministro das Finanças reconheceu que a Guiné-Bissau está a sofrer um "impacto económico muito significativo", com a pandemia de covid 19. O que terá este ano uma enorme repercussão na campanha de castanha de caju. Ao nível das Finanças Públicas, o impacto da pandemia deverá levar a Guiné-Bissau a perder 1,5% do seu Produto Interno Bruto. E deverá haver também gerar "perdas de [40 milhões de Euros]" em pagamentos.

Também em declaração ao DN, o economista guineense Abdulai Sombille Djaló alerta para o facto de o país importar tudo do estrangeiro. Por isso, a pandemia terá, economicamente, um efeito no aumento dos preços dos produtos e dos bens da primeira necessidade. "Se olharmos para o nosso tecido sócio-económico e a nossa estrutura comercial, importamos tudo do estrangeiro", alertou o economista que é também docente na Universidade Lusófona da Guiné, explicando ainda que "todos estes fatores farão com que exista um aumento exponencial dos preços dos produtos e dos bens da primeira necessidade". Considerou igualmente que de uma forma ou outra, os fatores económicos e financeiros estão profundamente ligados às estruturas familiares que vivem o dia-a-dia sem um rendimento regular nem as vendas regulares. O que no seu entender causará, por exemplo, uma quebra na procura da energia elétrica, uma vez que as famílias só terão dinheiro disponível para comprar os produtos da primeira necessidade. O que, na sua visão, irá instaurar no país a "lei da sobreviv
ência". Ainda de acordo com o economista, haverá enormes perdas para a Empresa de Eletricidade e Águas da Guiné-Bissau (EAGB). O que levará consequentemente a cortes de energia elétrica que irão afetar as famílias na Guiné-Bissau.

Por seu lado, a presidente da Rede de Paz e Segurança para as Mulheres no Espaço da Comunidade Económica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO), Antena da Guiné-Bissau (REMPSECAO-GB), Elisa Tavares Pinto, disse ao DN que o Estado de Emergência decretado pelo presidente Umaro Sissoco Embaló, que proibiu a circulação das pessoas e a abertura dos estabelecimentos comerciais, "está a ter um enorme impacto na vida das mulheres comerciantes dos mercados em todo o país". A ativista das mulheres no espaço da CEDEAO garantiu também ao DN que o "funcionamento dos Mercados apenas de três horas do tempo por dia" não compensa as despesas diária das mulheres vendedeiras e das peixeiras nos portos do Alto Bandim e do Cacheu. Elisa Pinto defendeu que o mesmo acontece também com as mulheres que "vendem hortaliças e legumes" nos mercados em todo o país cuja maioria tinha comprado produtos para cultivar legumes e hortaliças no Senegal.

"Há várias mulheres vendedeiras de legumes e de hortaliças que já estamos a apoiar, porque com o Estado de Emergência já não têm clientes para comprar os seus produtos. Assim, elas já não têm rendimentos para sustentar as suas famílias", explicou ao DN a ativista das mulheres da CEDEAO na Guiné-Bissau.

Ainda por seu lado, o economista Abdulai Djaló assegurou igualmente que o impacto económico da covid 19 poderá levar o porto comercial de Bissau e da Pesca de Alto Bandim a perderem toda a sua dinamica económica, financeira e comercial. Uma vez que o confinamento decretado em todo mundo limitou a circulação "de bens e de produtos tangiveis". Esta paralisação dos dois maiores portos do país pela pandemia, poderá, de acordo com Abdulai Djaló, ter maior impacto económico e social na vida dos guineense, uma vez que 80% da população do pais depende direta ou indiret
amente da comercialização da Castanha de Caju.

"Se tomarmos em consideração que 80% da nossa população vive da comercialização da Castanha de Cajú, com ausência dos empresários indianos e dos vietnamitas para comprar o nosso produto estratégico haverá quebras nas nossas finanças públicas. A crise económica e social aumentará em todo o país", explicou o economista guineense que assegurou igualmente que o atual governo de Bissau tem estado a pagar regularmente os salários na Função Pública desde que assumiu os destinos do país.

O marcado do peixe de Bissau, numa imagem de 2018

No entender de Abdulai Djaló, o governo de Nuno Gomes Nabiam ai
nda "possui reserva de título do tesouro público para fazer face às situações de urgência" salarial na 
Função Pública. O economista guineense garantiu igualmente que GALP portuguesa, a em
presa de combustível e de energia, já garantiu ao executivo de Bissau uma reserva de combustível suficiente para fazer face à crise da pandemia. Não obstante, o pagamento atempado agora dos salários na Função Pública, a maioria dos guineenses vive da economia informal, como as vendedeiras dos mercados ou as peixeiras dos portos de Alto Bandim e do Cacheu. Com o Estado de Emergência, as feirantes e as peixeiras queixam-se da "baixa do volume" da venda dos seus produtos. Na opinião da peixeira do porto de Alto Bandim Francisca Sá, o estado de emergência que presidente Umaro Sissoco Embalo decretou "reduziu muito o volume" da venda de peixe no porto de Bandim. Por seu lado, o capitão da Canoa de Pesca Alfa Umaro corroborou a opinião da peixeira garantindo ao DN que "não é só a redução do volume da venda de peixe, o combustível e o gelo também aumentaram". O que, no seu entender, tornou cada vez mais "difícil a vida dos pescadores" no porto de Alto Bandim, que agora têm de "pagar mais caro combustível de pesca e gelo" para conservar o pescado.

Em Bissau, as opiniões dos especialistas em Saúde pública são unânimes que "se os guineenses não se protegerem muito bem da pandemia de covid 19, o número dos mortos poderá aumentar drasticamente. Até este momento nenhum especialista guineense ou estrangeiro tem a noção clara quando é que o país atingirá o pico da pandemia. Mas todos concordam que as estruturas sanitárias do país não possuem ventiladores, oxigénio, médicos, técnicos especializados nem meios financeiros para fazer face a um contágio comunitário generalizado. Até hoje o país tem mais de 1200 pessoas infetadas e oito óbitos A maioria das pessoas infetadas vive em Bissau.
Rispito.com/DW, 02-06-2020

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