quarta-feira, 10 de março de 2021

Aly Silva defende que a Guiné-Bissau vive um estado de terror

O jornalista e bloguista guineense Aly Silva afirmou hoje que o país vive "um estado de terror" e que não tarda nada vão começar a aparecer cadáveres pelas ruas de Bissau.
Em entrevista à Lusa, um dia após ter sido sequestrado e espancado por homens armados, Aly Silva disse não ter dúvidas de que o que lhe aconteceu deriva daquilo que escreve no seu blogue "Ditadura de Consenso".

O jornalista disse que não tem elementos concretos para acusar alguém em especial, mas afirmou não ter dúvidas de que foram pessoas ligadas ao poder que o mandaram sequestrar, espancar e deixado desmaiado à beira rio em Bissau.

"Não tenho ideia, mas se o Presidente (da República) liga a ameaçar-me de cada vez que eu escrevo coisas, não posso acusar, mas posso pensar", declarou Aly Silva, enumerando um conjunto de casos por si denunciados no seu blogue que, disse, possam estar a incomodar o poder político.

"Fotos de aviões, avião que era suposto ir a Cabo Verde buscar o Alex Saab que eu pus no blogue e a América mandou retirar o avião daqui. A última foi o voo do Presidente de Cabo Verde, a Guiné-Bissau é que sustentou aquilo tudo", exemplificou Aly Silva, sobre assuntos que abordou no seu blogue.

Depois de postar um artigo em que escreveu que foi o Estado guineense que havia custeado a viagem do Presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, que no mês passado efetuou uma visita oficial a Bissau, o jornalista disse ter sido ameaçado pelo Presidente guineense.

"Ele (Umaro Sissoco Embaló) ligou-me à noite a dizer que ia mandar pôr-me no lugar", disse Aly Silva, realçando que não é o único guineense que recebe chamadas do género por parte do chefe de Estado.

A Lusa contactou a Presidência guineense para reagir a estas acusações, mas até ao momento não obteve resposta.

O jornalista disse que poderá ainda estar a ser atacado pela forma como critica a ingerência do Presidente do Senegal, Macky Sall, nos assuntos internos da Guiné-Bissau.
"Nós estamos a viver um estado de terror, agora, imagina se as pessoas que gostam de mim saírem e apanharem o filho de um governante e espancarem", referiu o jornalista, apelando às pessoas para não entrarem por esse caminho.
"Não é a primeira vez que fui espancado, mas não façam isso", exortou Aly Silva, mas realçando que o futuro próximo da Guiné-Bissau "não é risonho".

Apesar das agressões, o jornalista diz que não pretende sair do país.
"Em tempos escrevi que íamos começar a apanhar cadáveres nas ruas de Bissau, não tarda muito", declarou o jornalista, que classifica o que lhe aconteceu como "ato cobarde, feito por canalhas".

Aly Silva foi sequestrado e espancado, na terça-feira, no centro de Bissau, tendo depois sido abandonado nos arredores da cidade, um caso denunciado pela Liga Guineense dos Direitos Humanos.

Acabeça está toda ferida, o maxilar, não consigo comer, só bebo leite, cortaram-me a língua, pelo menos não cortaram toda, mas há uma parte que se levanta e está a doer-me. Bebo água e dói", afirmou Aly Silva, em declarações à Lusa.

Questionado sobre o que pensa fazer, o jornalista afirmou que não tenciona tomar nenhuma diligência que não seja continuar a fazer o seu trabalho, que disse ser "para o povo e para mais ninguém".

Aly Silva, que tem carteira profissional de jornalista de Portugal, disse que tem sido agredido por elementos do poder na Guiné-Bissau, pelo facto de apoiar abertamente Domingos Simões Pereira, candidato que disputou a segunda volta das eleições presidenciais de 2019.

"O próprio Presidente (da República) diz que eu apoio o Domingos, eu apoio e continuo a apoiar, eu sou livre de apoiar quem eu quiser, não sou sequer militante do PAIGC, sou um cidadão com direitos e apoio quem eu quiser", sublinhou.

O jornalista disse não esperar "nada da comunidade internacional", a quem acusa de ter "pactuado com o golpe de Estado" na Guiné-Bissau e agora "está mais preocupada com o que se passa no Senegal".

"Eu não estou aqui para a comunidade internacional me defender, eu consigo me defender quando puder, quando não posso acontecem estas coisas", disse.

Autor do popular blogue "Ditadura de Consenso", Aly Silva disse também estranhar o silêncio do Sindicato dos Jornalistas em Portugal.

"Sou jornalista com carteira profissional portuguesa e não ouvi nada. Pelo contrário, o que me surpreendeu foi ter lido uma declaração do sindicato dos jornalistas de Cabo Verde, foram firmes, mas do resto, de Portugal não ouvi nada", declarou Aly Silva.

Contactada pela Lusa, a presidente do Sindicato dos Jornalistas de Portugal, Sofia Branco, disse que contactou o sindicato guineense para apurar o que se passou, mas ainda não obteve respostas.

A responsável referiu, no entanto, que "este tipo de violência é sempre condenável e representa uma ameaça à liberdade de imprensa e à independência do jornalismo na Guiné-Bissau".

O jornalista realçou que antes de ser bloguista já possuía a carteira profissional, desde 1985.
"Até hoje mantenho a minha carteira renovável de dois em dois anos. Mas também não me preocupa isso, as pessoas sabem o que é que aconteceu", declarou Aly Silva, que apresenta hematomas no corpo.

O caso foi denunciado na segunda-feira pela Liga Guineense dos Direitos Humanos e, contactada pela Lusa, fonte do Ministério da Defesa e do Interior referiu que souberam do incidente através daquela organização.

Várias organizações da sociedade civil têm denunciado diversas violações dos direitos humanos contra ativistas, políticos, deputados e jornalistas e órgãos de comunicação social.

Um dos casos mais recentes foi o de dois ativistas políticos do Movimento para a Alternância Democrática (Madem G15), segunda força política do país e que integra a coligação no Governo, que denunciaram publicamente terem sido espancados alegadamente por guardas da Presidência guineense, dentro do Palácio Presidencial, um caso a que o Ministério Público guineense ainda não deu seguimento, de acordo com a Liga dos Direitos Humanos.
Rispito.com/Lusa, 10/03/2021

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