segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A democracia é um fato à medida de África?

África tem tentado experimentar a democracia, quase sempre, da forma errada ou a democracia não é um fato à medida de África?

O economista guineense Carlos LopesJá lá vão três décadas, muitos países africanos de partido único começavam a ser abalados pelos ventos democráticos; o então presidente francês Jacques Chirac declarou, sem meias palavras, que África não estava "madura para a democracia". Há dias, o economista guineense Carlos Lopes, antigo secretário-geral adjunto das Nações Unidas, que se encontrava em Bissau para apresentar os seus mais recentes livros, considerou um erro o modo como África tenta aplicar e consolidar o modelo democrático, quando deveria lutar pela "africanização da democracia". Carlos Lopes disse ainda: "A democracia não é consentânea com a nossa forma de agir e de pensar."

Paulo Pedroso, o sociólogo, professor do ISCTE e comentador residente do magazine A Espantosa Realidade das Coisas, foi confrontado com uma dúvida do editor Fernando Alves: quando o prestigiado economista guineense nos diz que há uma via africana para a democracia, deixa supor a possibilidade de uma democracia menos democrática ou está apenas a tentar afastar estereótipos que foram sendo criados em relação ao desenvolvimento africano? "Carlos Lopes é um grande intelectual africano que tem vindo a pensar a democracia em África há muitos anos", sublinha Paulo Pedroso. "O texto mais antigo dele, de que eu me lembro, é de 1996. E já defendia esta tese segundo a qual é necessário africanizar a democracia e não democratizar África. O que é que ele entende por 'africanizar a democracia'? No fundo, ele diz que há três questões colocadas pela democracia: nasceu na Europa, não em África e, como todos os processos que não nasceram dentro de casa, tem de se adaptar para poder servir em casa nova; África é um continente marcado por uma cultura comunitária e não individualista, enquanto a democracia nasceu muito ligada ao individualismo (por isso ele pergunta, muitas vezes, que alternativa democrática poderá existir, mais amiga da estrutura clânica, tribal, familística; e há uma terceira questão que decorre de a democracia ter nascido muito ligada ao capitalismo, a de saber que mecanismos pode África desenvolver que sejam alternativos a este capitalismo liberal."

Paulo Pedroso lembra, entretanto, que "a democracia é um processo longo que se constrói dentro das sociedades" e manifesta a convicção de que "um dos grandes problemas para a africanização da democracia passa pela pouca atenção que o mundo tem dado à consolidação das classes médias em África".

O sociólogo comenta ainda o fim do franco CFA e a perda de 40% ou mais da população de algumas zonas rurais do Alentejo, bem como do Centro e do Norte interiores. Trata-se de novos dados divulgados pela geógrafa Paula Santana, coordenadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra. Esses dados revelam que, só no continente português, há 20 municípios com densidade inferior a 10 habitantes por quilómetro quadrado.
Rispito.com/TSF, 06/01/2020

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