quarta-feira, 22 de julho de 2020

"Quem assumiu o poder na Guiné-Bissau está estreitamente ligado ao tráfico de droga"

Guinea-Bissau Ruth Monteiro (DW/B. Darame)

Após EUA criticarem demissão da equipa de combate ao narcotráfico na Guiné-Bissau, ex-ministra da Justiça Ruth Monteiro acusa Governo guineense de colaboração com traficantes: “São rececionados por forças de segurança".

A ex-ministra da Justiça e Direitos Humanos da Guiné-Bissau, Ruth Monteiro, acha que a sua demissão do cargo em fevereiro está relacionada à estratégia de combate ao narcotráfico que ela e sua equipa implementaram no país. Em entrevista exclusiva à DW África, Monteiro não mede palavras ao acusar o atual Governo de colaboração com traficantes.

Nesta terça-feira (21.07), o Governo dos Estados Unidos mostrou-se preocupado com o afastamento dos responsáveis pelo combate ao tráfico de drogas na Guiné-Bissau. Segundo a adjunta do secretário de Estado para o Gabinete para Narcóticos Internacionais, Heather Merritt, os resultados estavam a ser "extraordinários".

Merrit disse que o Governo norte-americano "está preocupado com o tipo de Governo que está a ter [a Guiné-Bissau] e com o esforço que ele está a fazer ou não para prevenir o tráfico de droga". 

Ruth Monteiro foi demitida a 27 de fevereiro deste ano e refugiou-se na Embaixada de Portugal em Bissau no início de abril. Na ocasião, integrantes do Governo do ex-primeiro-ministro Aristides Gomes denunciavam perseguição política. Após passar semanas na embaixada, Monteiro viajou para Lisboa no dia 28 de abril.

DW África: Como comenta a notícia de que os Estados Unidos se mostraram preocupados com um suposto "défice democrático" na Guiné-Bissau, falando de ataques à liberdade de expressão e até de retrocessos no combate ao narcotráfico?

Ruth Monteiro (RM): Penso que Washington tem razão. Penso que a comunidade internacional deve ter uma especial atenção ao que se vive na Guiné-Bissau. De fato nós temos um défice de democracia, temos um défice de liberdade. Eu saí da Guiné numa situação praticamente de fuga, porque temia pela minha integridade física. Estive escondida durante dois meses. O primeiro-ministro legítimo da Guiné-Bissau encontra-se refugiado há quatro meses. Tudo isto tem a ver com a falta de segurança no país. Ele [o Presidente] disse claramente que está a iniciar o trabalho no país, uma empresa para poder monitorar as comunicações telefónicas dos guineenses ou de quem quer que ouse falar mal do regime.

DW África: Entretanto o programa de Governo de Nuno Nabiam foi aprovado na Assembleia Nacional Popular, certo?

RM: Existe no Supremo Tribunal de Justiça uma previdência cautelar com vista a declarar a suspensão desses atos administrativo, porque o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) tem a maioria no parlamento. (...) Temos membros do governo que são demitidos por Umaro Sissoco Embaló à noite para de manhã apresentarem-se como deputados e à tarde voltarem a ser ministros...

DW África: Acha que a sua demissão tem a ver com o seu trabalho no combate ao tráfico de drogas na Guiné-Bissau?

RM: O que me parece é que o Governo, e quem assumiu o poder na Guiné-Bissau, está estreitamente ligado ao tráfico de droga. É daí que um Governo liderado por Aristides Gomes – que combateu o tráfico de drogas e deu um rude golpe aos traficantes - é combatido por estes novos governantes. Sissoco declarou há dias que já não há tráfico de droga na Guiné. Em tom de ironia eu diria que os traficantes de droga agora fugiram todos, porque não gostam dele...  Durante o governo de Aristides Gomes, quando eu era ministra da justiça, houve resultados no combate ao tráfico. Agora não há resultados. Há carregamentos de droga no sul do país. Os traficantes são rececionados por forças de segurança e por militares. Temos o Ministério Público apoiando e protegendo os traficantes de droga. Houve um caso de apreensão de cocaína no aeroporto e a Polícia Judiciária foi obrigada a devolver tanto a droga como a pessoa que tinha a droga em seu poder às forças do Ministério do Interior que estavam no aeroporto.

DW África: Esses contactos são maiores e mais envolventes do que o eram noutras épocas, com outros governos, liderados por outros partidos?

RM: O governo de Nuno Nabiam foi apoiado pelos militares. Um desses militares tem um mandado internacional de captura por tráfico de droga e terrorismo. Isto dá uma resposta muito sucinta à situação da droga na Guiné-Bissau.

DW África: Tem condições, neste momento, de regressar ao seu país?

RM: Absolutamente nenhuma. Nem sequer em Portugal me sinto em segurança, sobretudo depois de entrevistas como esta.

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