segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

EXISTEM VACINAS CONTRA VÍRUS DA POLÍTICA?

Por - Carlos António Gomes
Talvez existem e por isso vale a pena recordar que os conselhos são como as vacinas, dão-se para evitar aquilo que não se deseja, seja problemas ou doenças, e em muitos casos uma única dose não é suficiente e são precisas uma 2ª ou 3ª dose para se obter o efeito desejado. Em casos excepcionais podem ainda ser necessário reforços de tempos em tempos. Por esta razão pode ser útil repetir aqui alguns conselhos que nos parecem vigentes e pertinentes nestes momentos conturbados que a Guiné-Bissau ainda atravessa. Vale a pena insistirmos nos conselhos que se seguem, até que se vejam refletidos na forma de pensar e de agir de todos os cidadãos do nosso país e com maior rigor e ênfase nos políticos, militares e em todos aqueles que aspiram a ser líderes na nossa sociedade.

 DIÁLOGO, CONSENSOS E RESPEITO ENTRE TODOS
"PALAVRAS DE ORDEM"

"... ensinaram-me uma vez, aprendi e nunca mais esqueci, que, quando se está numa situação de conflito, "a razão não é tudo" e que, se nestas circunstâncias de conflito alguém se aproximar de nós e nos diz assim: "tu tens razão, mas deves deixar"; esta pessoa é nossa amiga e devemos parar para ouvi-la melhor...

É minha, e acredito ser também vossa, a convicção de que resolver um problema quer da matemática ou da vida implica em primeiro lugar compreendê-lo para poder equacioná-lo, criar um esquema mental e definir etapas ou caminhos para encontrar a solução. E logo resolver acertadamente cada passo até chegar à solução certa.

Um entendimento igualmente válido e que com certeza partilhamos é o mesmo daquele que querendo concertar uma máquina estragada sabe que tem primeiro que ter o conhecimento dos mecanismos do seu funcionamento e disfuncionamento para saber como fazer e poder procurar os instrumentos adequados. E quando se trata de máquinas complexas, onde por exemplo estão integrados os sistemas mecânicos e electrónicos, é preciso ainda mais, ou seja, tem que compreender também a relação ou vínculo entre os dois sistemas. Nem sempre uma avaria se localiza no sítio que não funciona.

A sociedade é um sistema ainda mais complexo que as máquinas complexas porque as suas "peças" têm ideias, sentimentos e necessidades, e além disso, estão em mudanças constantes: de número, de perfil e de campo, etc...

Os conflitos têm melhor perspectiva de solução quando o bom senso leva as partes a se esforçarem minimamente em reconhecer a razão da adversária; mas eles podem agravar-se quando as emoções, a falta de discernimento ou má fé impedem qualquer reconhecimento das causas e motivações da outra parte...

Devemos ser os primeiros e os últimos responsáveis na busca da solução da crise que nós criamos e dela devemos tirar lições para um futuro melhor. Pedir ou aceitar ajuda, se for necessário, para a  resolução pacífica da crise, com base numa mediação ou arbitragem idónea, imparcial e aceite pelas partes desavindas, é um acto de coragem, de boa fé e de sabedoria, mas fugir à nossa responsabilidade é má fé e é passarmos a nós mesmo certificado de incompetência....

Os que assumirem o poder não devem preocupar-se apenas em fazer bem só aquilo que satisfaça as suas ambições pessoais, nem devem procurar ou encontrar pessoas para cargos relevantes para o Estado só no círculo de seus familiares, amigos, etnia, religião, ideologia ou partido político, porque este comportamento é uma forma de "juntar a lenha à espera de quem traga o fogo"...

É insuportável e retrógrado ter uma elite social ou política com extraordinária capacidade de reconhecer e colocar defeitos nos adversários, mas com muito pouca capacidade de reconhecer virtudes em quem quer que seja. Devemos ter atenção de que demasiada inveja e competição pela negativa e muito pouca humildade torna o ambiente selvagem. Isto pode levar a que em vez de ter que escolher entre o bom e o melhor somos obrigados a escolher entre o mau e o pior. Deus há-de livrar-nos deste mal.

Não é tolerável na sociedade, e sobretudo no cenário político, que prevaleçam fraquezas como o recurso à mentiras, difamações ou intrigas, às desinformações, boatos ou complots, à má fé e ao oportunismo como armas para atingir o poder, porque o poder conseguido por estes meios nunca pode ter longevidade. Devemos tomar a consciência de que estas fraquezas só se podem combater com acção psico-social e pedagógica e a receita tem que ser endógena, quer dizer, não pode vir de fora, tem que partir de dentro da sociedade.

Há que reconhecer que temos um belo país, que é potencialmente rico, onde se consegue produtos para exportar mesmo sem grandes sacrifícios, um país com lindos coloridos sociais e riquezas culturais impressionantes, com um povo pacífico e acolhedor, onde neste momento só falta o bom comportamento da sua elite política, militar e social. E este bom comportamento depende de nós e só de nós, com a nossa consciência. O bom comportamento que nos fará recuperar o prestígio, respeito e admiração, não vai chegar por terra, ar ou mar, ou através dos bancos como chega a ajuda externa ou financiamentos de países ou de organismos internacionais, nem pode vir como as forças de interposição ou estabilização. O bom comportamento só poderá ser produto da consciência, da tolerância e do trabalho nacional...

Os governantes e elites políticas não devem excluir cidadãos com experiência, capacidade e idoneidade moral. Quer isto dizer que os quadros, os políticos e governantes mais velhos ou reformados devem merecer consideração, porque eles, tratados com respeito, podem contribuir para a paz, o sossego e o desenvolvimento do país, mesmo que seja só com ideias. É preciso recuperar o sentido de responsabilidade, de justiça e de humildade, e entender que é um dever de todos lutar pela preservação do testemunho histórico. As gerações não devem ser piores que aquelas que a precederam e não se pode deixar-se cair no ciclo de recomeço permanente, porque, se isso ocorrer, o tempo se encarregará de afundar a Nação...

Onde é recorrente crises ou conflitos sociais pode ser justificada a criação de um sistema de alerta e prevenção, assim como é feito para alerta e prevenção em zonas de sismos e vulcões. As crises sociais e as guerras são piores que as catástrofes naturais, porque, além da destruição, promovem a divisão e o ódio, e deixa sementes para conflitos futuros; enquanto o terramoto, o vulcão e as inundações destroem, mas promovem e reforçam a solidariedade e a união entre as pessoas. Quer-se sugerir com isto a constituição de um órgão nacional para estudo, vigilância e prevenção de conflitos políticos, militares e sociais. Este órgão deveria incluir, entre outros, especialistas das ciências políticas, ciências sociais, psicologia social, informação e outras figuras de reconhecido valor e influência na sociedade..."

(Sublinhados do texto/reflexão  carta aberta "PELA GUINÉ-BISSAU" escrita em 2 de Maio de 2012 e publicada no site Contributo).
Artigo continua na próxima edição
Por: Carlos António Gomes
OBS: Todas as opiniões aqui editadas são da inteira responsabilidade do seu titular (autor)

Sem comentários:

Publicar um comentário

ATENÇÃO!
Considerando o respeito pala diversidade, e a liberdade individual de opinião, agradeço que os comentários sejam seguidores da ética deontológica de respeito. Em que todas as pronuncias expressas por escrita não sejam viciadas de insultos, de difamações,de injúrias ou de calunias.
Paute num comentário moderado e educado, sob pena de nao sair em público