sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Carlos Lopes: “Os africanos têm de aproveitar a obsessão europeia com a migração”

O antigo assessor político de Kofi Annan, que encerrou em 2016 uma longa carreira na ONU, defende uma transformação estrutural de África, com uma aposta na industrialização verde e uma maior integração. “A África fragmentada não tem futuro”, garante.

Carlos Lopes refere que o desenvolvimento de África depende da China, que está a "expandir a influência" a um custo muito barato, por isso é preciso maior integração.

Encerrou há três anos a sua carreira na ONU por vontade própria, depois de ter sido “braço-direito” do então secretário-geral Kofi Annan e de exercer vários cargos de topo, o último como chefe da Comissão Económica para África. Dedica-se agora à “actividade puramente académica” (professor na Universidade da Cidade do Cabo), ao aconselhamento estratégico de dirigentes africanos (ajudou a elaborar o documento Agenda 2063 para a União Africana) e à divulgação de ideias, tendo lançado recentemente em inglês Africa in Transformation - Economic Development in the Age of Doubt. É um livro optimista sobre o desenvolvimento do continente africano através da industrialização.

Estratégia de crescimento inclusivo, melhores sinergias entre instituições regionais, investimento forte em infra-estruturas, desenvolvimento sustentável com melhores práticas, aposta no agronegócio e na industrialização, na economia azul e no ecoturismo. Isto resume bem o seu livro?

De certa forma retira do livro os elementos essenciais do que deve ser uma estratégia a que chamo de transformação estrutural. Uma parte dessa estratégia é não fazer as coisas como se fazia antes. A transformação estrutural é uma mudança da forma de governar em África. Por isso, classifico os países em duas categorias: os rentistas e os reformadores. Os rentistas vivem dos recursos naturais ou de fontes como a ajuda ao desenvolvimento, sem necessidade de fazer o esforço de transformação; os transformadores estão a tentar ir além de uma política conformista e alterar a estrutura da economia. O elemento essencial dessa alteração é a introdução da industrialização acelerada.

É muito crítico da “narrativa feliz” da ascensão de África, porquê?
Tenho três dificuldades com essa narrativa. A primeira é estatística: as estatísticas são muito débeis, apenas 16 países têm contas nacionais em dia, significando que a estrutura do PIB, o tamanho das economias é projectado. Temos 60% da população africana sem bilhetes de identidade, sem registos de nascimento, ou seja, o tamanho da população não é conhecido, mas estimado. Temos apenas 1% do território africano cadastrado com registo de propriedade. Não se pode fazer diagnóstico de qualidade sem boas estatísticas.

Segundo problema, é uma narrativa construída sobre as oportunidades de negócio para os outros e não sobre as oportunidades de crescimento e transformação dos africanos. A terceira dificuldade é que se trata de uma narrativa muito superficial, não vai à profundidade, nem à necessidade de contextualizar e mete tudo no mesmo saco; essa simplificação acaba por ser contraproducente porque não permite ver que há países que estão na boa direcção e países que não estão. Essa narrativa serviu para recompor um pouco a imagem de África junto do mainstream, mas acabou por ter um efeito perverso junto dos africanos.
Rispito.com/publico, 08-08-2019

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